Leveconsciencia

Simplicidade, Leveza e Relevância

A CAPTURA DO JAVALI DE ERIMANTO

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Libra

Sétimo Trabalho:

A CAPTURA DO JAVALI DE ERIMANTO

“Outro trabalho deve ser feito. De equilíbrio ele precisa e do julgamento justo, de uma preparação para um teste importante e um futuro serviço à humanidade. Que ele se prepare para isso com cuidado”. Pensou O Grande Ser Que Presidia. E o Instrutor, anotando em suas tábuas o propósito da prova seguinte, dirigiu-se a Hércules e lhe disse: “Vai, meu filho, e captura o javali selvagem; salva uma terra assolada, contudo, guarda um tempo para que te alimentes”. E Hércules partiu. E Hércules cruzou o sétimo Portão. O poder do sétimo portão passou através dele. Ele não sabia que estava sendo submetido a uma prova dual, a prova da amizade rara e da coragem destemida. O Instrutor lhe havia recomendado que procurasse um javali e Apolo lhe dera um arco novo em folha para usar. Disse Hércules: “Eu não o levarei comigo neste trabalho, pois temo matar. Desta vez não farei isso. Deixo aqui o arco”. E assim desarmado, a não ser com a sua fiel clava, ele escalou a montanha, procurando pelo javali e encontrando um espetáculo de medo e terror por toda parte. Mais e mais ele subia. E então encontrou um amigo. Ele se encontrou com Pholo s, que fazia parte de um grupo de centauros, conhecidos dos deuses. Eles pararam e conversaram e por algum tempo Hércules esqueceu-se do objetivo de sua busca. E Pholos convidou Hércules para furar um barril de vinho, que não era dele. Ao grupo de Centauros pertencia o grande barril. Os deuses que haviam aquinhoado os centauros com o barril avisaram que este jamais devia ser furado, a não ser quando os centauros estiverem todos presentes. O barril pertencia ao grupo. Mas Hércules e Pholos o abriram na ausência de seus irmãos, convidando Cherion, um outro sábio centauro, para se juntar a ambos. Assim ele fez, e todos os três beberam, e festejaram e se embebedaram e fizeram muito ruído. Este ruído os outros centauros ouviram, de pontos distantes. Enraivecidos eles vieram, e uma feroz batalha então ocorreu e apesar das sábias resoluções, Hércules tornou-se mensageiro da morte e matou seus amigos, a dupla de centauros com quem ele havia bebido. E, enquanto os demais centauros com altos lamentos choravam suas perdas, Hércules escapou novamente para as altas montanhas e recomeçou sua busca.

Até os limites das neves ele avançou, seguindo as pegadas do feroz javali; até as alturas e o amargo frio ele o seguiu, e contudo não o encontrava. E a noite se aproximava, e uma a uma as estrelas surgiam, e ainda o javali se distanciava dele. Hércules meditava sobre sua tarefa e buscava dentro de si mesmo uma habilidade sutil. Ele colocou um armadilha com habilidade, cuidadosamente oculta, e então esperou numa sombra escura pela chegada do javali. As horas se passavam, e ainda ele esperava, até surgir a aurora. De sua toca, o javali emergiu, procurando alimento levado por fome antiga. O javali caiu na armadilha e no devido tempo Hércules libertou a fera selvagem, tornando-a prisioneira de sua habilidade. Ele lutou com o javali e o domesticou, e fê-lo fazer o que lhe determinava e seguir para onde Hércules desejava. Do pico nevado da alta montanha Hércules desceu, regozijando-se no caminho, levando adiante de si, montanha abaixo, o feroz, contudo domesticado javali. Pelas duas pernas traseiras ele conduziu o javali, e todos na montanha se riram ao ver o espetáculo. E todos na cidade riram ao ver o espetáculo. E o Grande Ser comentou: “A lição do verdadeiro equilíbrio foi aprendida. Falta ainda uma lição. No nono Portão, o centauro deve ser novamente encontrado, conhecido e corretamente compreendido”. E o Instrutor disse: “O sétimo trabalho foi completado, o sétimo Portão ultrapassado. Medita sobre as lições do passado, reflete sobre as provas, meu filho. Por duas vezes mataste a quem amavas. Aprende por quê”. E Hércules permaneceu no centro dos portões da cidade e lá se preparou para aquilo que mais tarde iria ocorrer, a prova suprema.

Alice Bailey Antes que Hércules capturasse o javali, ele se sentou à mesa de Pholos e bebeu até que o vinho lhe subisse à cabeça. Nessa ocasião ele era a alma da jovialidade, buscando e encontrando prazer. Para Hércules, como para todos os que assumem o trabalho que deve ser realizado em Libra, a fumaça do prazer deve ser dissipada antes que a tarefa maior do auto-domínio, por exemplo, a captura do javali, possa ser cumprida. Deve-se notar que o tragar do vinho por Hércules leva a uma tragédia, a morte de Pholos. Esta súbita ocorrência de uma catástrofe para aquele que vive em busca do prazer é uma necessidade para o crescimento da alma. Sem tais tragédias, as potencialidades de Libra permanecem adormecidas. Hércules não usa a força bruta ao capturar o javali. Ele arma uma armadilha, espera até a fera cair nela por si mesma.(…)

(…) Contam-nos que Hércules agarra as patas traseiras do javali e o compele a descer a montanha em suas patas dianteiras, e que este espetáculo excita o riso de todos que o testemunham. Neste incidente nós observamos a habilidade de Libra para encontrar soluções incomuns e perceber o valor do incongruente. A percepção das incongruências é uma das maiores armas dadas à humanidade em sua perpétua luta contra a ilusão. É a fonte do riso que explode pretensões e destrói instituições obsoletas. Este é o único trabalho que termina numa explosão de riso. Não só Hércules cumpre com a tarefa que lhe fora atribuída, mas também faz do feroz javali um objeto de ridículo. Por uma perspectiva levemente alterada, muitas das terríveis experiências da vida podem ser transformadas em um benéfico senso de humor. Muitas coisas que as pessoas encaram com grave seriedade têm decididamente ridículos aspectos. A imagem de Hércules conduzindo o javali por suas patas traseiras é uma representação simbólica da alma dirigindo o desajeitado corpo. Libra caminha pesando e equilibrando todas as coisas. Essa atitude freqüentemente torna o ser hesitante e indeciso. Sabendo que há inúmeras graduações entre o branco e o preto, raramente estará inclinado a ser um extremista. (…)

(…)A busca da verdade, então, se transforma no desenvolvimento do discernimento. Em um sentido, a verdade não existe para os seres humanos, porque todas as verdades são apenas frações de outras maiores. A busca desses conceitos mais inclusivos é de importância maior do que a insistência em um fragmento isolado de um segmento estreito, separatista. A meio caminho entre o céu e a terra, Libra aguarda. Olhando para cima, vê a visão, a brilhante aurora dourando um cume elevado; olhando para baixo, aprecia os pantanais e atoleiros, por onde os filhos dos homens passam. De um lado, o ser se identifica com elevados ideais; do outro, os vê repudiados. Nesse ponto do meio do caminho deve permanecer e trabalhar. Se ele se eleva em direção ao mundo ideal, ele perde o contato com as coisas comuns; se descer ao nível da atividade materialista, perde as preciosas percepções que são a razão de ser de sua existência. Entre esses dois mundos se posiciona para que possa novamente ganhar compreensão; uma compreensão que inclui o mais elevado e o mais baixo, o bom e o mau, o valioso e o insignificante. Isto é compaixão. (…) (…)Libra não tem inclinação para fanatismo ou tirania. Procurando persuadir, em vez de compelir, compreende a arte do compromisso espiritual; isto envolve uma decisão de não se prender aos pontos não-essenciais, e uma compreensão de que o céu é alcançado por uma série de passos separados, e não por um único salto selvagem. Servir aos demais requer uma avaliação justa de suas capacidades; esperar destes o que eles são incapazes de dar, é tanto frustrante quanto imprudente. A ajuda dada a uma pessoa deve encontrar expressão no contexto de suas limitações. Se isto não for feito, a ajuda pode transformar-se em impedimento. Uma cuidadosa distinção deve ser feita entre uma grande ajuda e uma muito pequena; se for dada muita, o indivíduo não se sentirá encorajado a usar seus próprios recursos, enquanto que uma ajuda demasiado pequena poderá levá-lo a se afundar num mar de desespero. Em outras palavras, a ajuda deve ser ajustada cuidadosamente às necessidades do indivíduo envolvido. Em muitos casos, a ajuda poderia ser apenas um estorvo; portanto, é muitas vezes melhor deixar uma pessoa modelar suas certezas espirituais a partir de seus próprios amargos conflitos. O constante dimensionamento tão característico de Libra tem um fim; o estabelecimento do ponto de equilíbrio. O mundo é sustentado por esse ponto de equilíbrio. Na verdade, as leis de causa e efeito podem ser consideradas como atividades equilibradoras que impedem a continuidade de uma condição desequilibrada. As catástrofes que se abatem sobre um homem são destinadas, não a punir, mas a restaurar esse ponto de equilíbrio em sua natureza. Quem estabelecer este ponto de equilíbrio em sua própria vida não será obrigado a tê-lo imposto sobre si por uma circunstância severa, ameaçadora. Os pratos da balança de Libra são facilmente osciláveis para cada lado, mas o ponto do meio no qual o equilíbrio repousa permanece inalterado. Este é o ponto de apoio, o retiro secreto que as sombras flutuantes das sublevações e catástrofes terrenas jamais podem ameaçar. Dever-se-ia assinalar que o ponto de equilíbrio, como aqui concebido, é uma condição dinâmica, não estática. Um sistema balanceado de energias poderia ser uma definição mais adequada; se quiséssemos enunciá-lo de maneira diferente, poderia ser chamado de um arranjo ordenado de energias dirigidas e controladas por uma abrangente vontade-para-o-bem. O homem plenamente desenvolvido ou iniciado, poderia talvez ser descrito em tais termos, também. Em meio à dissonância, Libra acalenta o sonho de harmonia; no país distante, lembra-se da casa do Pai. Em memória disso, procura ser um ponto de paz num mundo de forças que se chocam. Esta é a meta, mas nem sempre a conquista. Contudo, este anseio pela harmonia fortalece o desejo de promover a paz. Nesse ponto, pode-se habitualmente compreender ambos os lados de uma questão, e ter habilidade para torna-se um bom mediador e árbitro. As energias que emprega são a persuasão, a cortesia e a cooperação; quando estas falham, desdenha métodos mais grosseiros. Libra é naturalmente inclinado ao trabalho grupal, e é atraído por todos os programas de ação que promovem a fraternidade e a unidade.

Os dois bons centauros que Hércules matou são conhecidos com Cherion (bom pensamento) e Pholos (força física). Esse teste foi para demonstrar o controle da natureza astral, emocional, do desejo, seja qual for a forma assumida. Não se consegue controlar ou guiar a natureza do desejo somente pela força física ou pelo pensamento. Pode-se ter êxito, durante certo tempo, mas depois ele ressurge dominante outra vez. A única resposta é levar o javali do desejo para as altas montanhas. É nos cumes das altas montanhas que todas as revelações ocorrem, onde as névoas do vale desaparecem e a iluminação chega…

Extraído do livro OS TRABALHOS DE HÉRCULES. Alice Bailey

Outro aspecto desta história serve-nos de profundo estímulo: de um ponto de vista superior (como o do Ser Que Preside) e não do corriqueiro, os fatos e acontecimentos não têm tanta importância, mas sim o crescimento e a ampliação da consciência do homem ao vivenciá-los, e as transformações que faz em si por meio deles. É claro que as intenções positivas nem sempre correspondem às nossas possibilidades reais. Podemos ter o propósito de não matar, de não nos embriagarmos (não nos iludirmos); porém se o javali ainda não foi domesticado, nada podemos garantir. Os Seres que nos presidem sabem de tudo isso, e o que conta para Eles é que não fiquemos estagnados no ponto que já alcançamos, mas que sigamos adiante no processo evolutivo.

Extraído do livro HORA DE CRESCER INTERIOMENTE. Trigueirinho.

Sugestão para aplicação prática desse estudo:

  1. Trabalho com o desejo: Aspirar elevar a qualidade dos desejos

2.Trabalho com o discernimento e com o equilíbrio:

Utilizar o trabalho já conscientizado e desenvolvido com os opostos no Sexto Trabalho para buscar o caminho do meio, a união/harmonização dos opostos. O caminho do meio será alcançado ao enfrentar as situações conflitantes com soluções sábias, criativas. Soluções que estejam acima do nível do confronto, num plano superior e de forma inusitada. O caminho do meio é a procura de uma atitude neutra, isenta, uma vez que cada lado, mesmo que não seja conflitante, é apenas uma fração da verdade.

 

Reflexões Sobre o Sétimo Trabalho de Hércules

Convém lembrar que o estudante que tiver encontrado dificuldade de assimilar o estudo de algum Trabalho anterior, deve continuar a tentar aplicá-lo por mais algum tempo, o tempo que for necessário e procurando praticá-lo com uma atenção especial.

Este Sétimo Trabalho propõe desenvolver o desejo, e outros aspectos também. O desejo já foi tema do segundo Trabalho porém agora num outro nível, num outro patamar. Neste momento, sua transformação será fundamental para que se alcance a neutralidade, o equilíbrio e a sabedoria. O caminho da necessidade da resolução do desejo é enunciado logo no início do Mito quando o Instrutor adverte para que Hércules se alimente bem. Caminho confirmado posteriormente quando o javali, que simboliza o desejo, cai na armadilha “levado por fome antiga”. Sintetizando: o desejo leva o ser a cair nas armadilhas e é necessário transcendê-lo, que é simbolizado pelo herói alimentado, para que se possa alcançar a equilibrada neutralidade.

O desejo não é extinto mas elevado, o javali não é morto, mas habilidosamente capturado. A esta altura do desenvolvimento do ser, após ter apreendido os ensinamentos anteriores, o desejo/javali já pode ser domesticado.

A cada Trabalho fica mais evidente a complementaridade entre eles. A consciência dos aspectos opostos desenvolvida no Sexto será essencial para conseguirmos alcançar o ponto de equilíbrio, o caminho do meio entre os opostos proposto no Sétimo Trabalho.

O caminho do meio é atingido por Hércules quando ele resolve o dilema, que é a ameaça do javali, por meio de uma solução habilidosa. O herói não enfrenta o javali diretamente, ele constrói uma armadilha e o captura. Além disso, não o mata, mas sim, o domestica e de forma inusitada. O riso provocado não é do javali mas do desejo que ele representa. Simboliza a infantilidade do desejo e como podemos e devemos rir de nossas próprias infantilidades para aprendermos. No Mito, a palavra habilidade aparece várias vezes se contrapondo ao desejo pelo vinho.

O lado negativo de Libra, representante deste Trabalho, é alternar entre os extremos ou não decidir por nenhum, o chamado “em cima do muro”. O positivo é poder encontrar o caminho do meio que nos coloca acima dos extremos.

A neutralidade é alcançada pelo não envolvimento direto no conflito, é ficando acima dele utilizando uma solução sábia, pois as partes são, evidentemente, frações da totalidade. Se “tomamos partido” nos tornamos restritos no respectivo setor, seremos sectários. Um exemplo que elucida fielmente essa idéia é a história do Rei Salomão. Conhecido por sua grande sabedoria, foi procurado para decidir com quem ficaria um bebê cuja maternidade era reclamada por duas senhoras distintas. Como não chegavam a um acordo, o rei decidiu repartir a criança ao meio e reparti-la entre as duas. De imediato, a verdadeira mãe abriu mão da sua parte o que provou a todos quem era a verdadeira mãe. Nesta história, Salomão ficou acima dos lados, não tomou partido e adotou uma solução inusitada.

Outro exemplo igualmente ilustrativo ocorreu com um estudante quando tentava aplicar o ensinamento deste Sétimo Trabalho. Ele estava muito ocupado e atrasado com suas tarefas quando o telefone tocou. Era uma simpática vendedora de cartão de crédito dizendo que ele era um sujeito de grande sorte pois tinha sido escolhido para ser contemplado com o cartão que representava. O estudante sentiu um início de irritação pois estava ciente da dificuldade que teria para convencer a jovem de que não necessitava daquele produto, e que deveria conseguir seu intento de forma gentil e educada. Lembrou-se do Sétimo Trabalho e respondeu que aceitaria o cartão oferecido. Assim que a vendedora demonstrou seu contentamento, ele acrescentou: “mas com uma condição; que eu fique isento da anuidade!” Nesse momento, ela começou a rir espontaneamente sendo correspondida pelo estudante, e ela compreendendo, esportivamente encerrou a ligação. Aqui também percebemos uma forma inusitada de enfrentar um conflito e de forma neutra.
 

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