Na minha juventude, eu acreditava na afirmativa de Roberto Carlos, que só ia gostar de quem gostasse de mim. Eu, na minha ingênua pretensa maturidade, achava que essa seria a melhor forma de evitar a frustração de não ser amado.

Por muito tempo, eu me guardei e evitei dar o meu amor sem a certeza de uma correspondência. Não que não amasse, eu apenas não confessava o meu amor. E assim passei um bom tempo, amando calado e retendo os meus sentimentos.

O tempo foi passando, e eu percebendo que, talvez, tudo aquilo não passasse de uma retórica lírica, um jogo de palavras para criar uma imagem musical romântica de um sentimento controlado. Se a jovem me amasse, ela que confessasse o seu amor por mim, e só assim eu estaria a salvo de decepções amorosas.

Triste ilusão! Amei calado e sofrido. A dúvida me fragilizava os sentimentos. Será que ela me amava, mas em minha timidez, eu não tinha coragem de confessar o meu amor! Isso não aconteceu com uma ou outra que de mim se aproximasse, mas com quase todas. E se mais não ocorreu, foi porque eu comecei a perceber que eu devia estar errado.

No meu amor pela filosofia, fui conduzido a profundas reflexões sobre o amor, a paixão, a amizade, o companheirismo e outras formas de amar e ser amado. Seria o amor um sentimento exclusivo de quem deseja conquistar alguém? E o prazer de estar próximo de quem nos dá uma sensação de plenitude, quando o tempo se anula e o eterno parece sempre o presente, o que seria e como definir?

Esse processo foi lento, como tudo que se relaciona a sentimentos e sensações. Não se pode tirar conclusões envolvendo o amor com rapidez e certezas. As dúvidas se tornavam mais fortes, quando surgia um desafio amoroso, fazendo-me avançar ou recuar, temendo estar errado em ambas as decisões.

O sentimento que insistia em prevalecer era a paixão, um sentimento sufocante de querer possuir, mas sem saber como conquistar e manter a conquista. Amar não é difícil, difícil mesmo é tornar esse sentimento gratificante para ambas as partes.

Quando só um ama, o amor não é completo, falta a correspondência das duas partes envolvidas. Se não houver o compartilhar dos sentimentos ou o consenso entre os que se amam, a relação será passageira e frágil como a ilusão que a inspirou.

Eu decidi que não era certo, aguardar alguém confessar o seu amor, e eu tomar a decisão do alto de um pedestal, sem correr o risco de ser rejeitado. Isso era egoísmo, e nenhum sentimento que se preze pode começar com um ato egoísta.

A essa altura, eu estava amando, sem perceber muito bem o tipo de sentimento que eu vinha alimentando por uma amiga. Mas, pensava eu, como me relacionar amorosamente com quem é uma amiga, com quem eu adorava trocar opiniões e fazer confissões, inclusive as amorosas. Aquilo não podia ser amor! Mas, era!

Um amor que envolvia todas as formas de sentimentos, a amizade e o companheirismo acima de tudo, sem fronteiras ou limites. Eu estava amando uma amiga, a quem eu dedicava a minha admiração e o meu coleguismo.

De repente, eu me dei conta que estava amando loucamente, e ainda bem, que não era a namorada de um amigo meu, apesar que podia ter sido. Ela gostara de um amigo meu, e eu, de uma amiga dela. Mas, esses gostos não deram em nada, ainda bem!

Namoramos, noivamos e casamos, bem no estilo tradicional da nossa época. Ela me ensinou que o amor tem múltiplas faces, e o que costumamos chamar de amor quase nunca é um amor verdadeiro.

Gostávamos de conversar e falar de nossas vidas, um com o outro. Esquecíamos do tempo, enquanto repassávamos as nossas histórias. Isso se repete ha mais de 50 anos, e o assunto nunca termina, tem sempre mais um detalhe, que parece não poder ficar para amanhã.

Lembram-se daqueles bonequinhos do “Amar é …”? Se me pedirem para definir o amor, eu não saberia dizer o que ele é, mas, sem dúvida, saberia detalhar o que ele não é.

As pessoas costumam justificar, com o passar do tempo, as novas formas de amar. Esse amor moderno, sinto muito, não é amor. Pode ser tudo, mas não é amor. Sem companheirismo e sem uma leal amizade, não existe o amor.

Ainda hoje, a afirmativa musical do Roberto Carlos prevalece, ainda que se julgue o contrário. Se a juventude daquela época era transviada, a velhice de hoje em dia não é diferente.

Não importam as idades, repetem-se as mesmas velhas atitudes, sem nos darmos conta que estamos agindo como aqueles cabeludos de outrora, só que calvos ou carecas.

Não, não defina amor, apenas ame. E nem tente começar com essa velha história da jovem guarda, que eu só vou gostar de quem gosta de mim. Ame a todos, sem tentar diferenciar as inúmeras formas de amar.

Sim, existem várias formas de manifestarmos amor, todas elas com um sentido generoso, gentil e amável de tratarmos os semelhantes. A nossa alma saberá distinguir o que seja cada sentimento atribuído às diversas relações, sem que precisemos usar de subterfúgios para definir cada sentimento.

Eu vou amar a todos, e não somente a quem gosta de mim. A minha alma me ensinou a dedicar à humanidade todo o meu amor, e a uma só pessoa um sentimento de afinidade, amizade e companheirismo.

Se já estávamos prometidos um ao outro, eu não sei, mas parece que sim.

Gilberto Gonçalves
gilbertodacunhagoncalves@gmail.com

 

 

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