O ano era o de 1991, o vírus da época era a Guerra do Golfo. Sim, sempre há um vírus ameaçando a vida na Terra. Eu vivia um momento confuso, entre a Matéria e o Espírito.

Preso aos costumes e desejoso de me libertar das prisões da alma. As rotinas me consumiam, eu as acatava e vagava entre a família e o trabalho. Sabia que um chamado ressoava forte em minha mente, mas não entendia seu significado.

Entre o Rio de Janeiro e São Lourenço, eu oscilava entre os planos físico e espiritual. Num, eu trabalhava e promovia lucros, noutro, eu rejeitava o sucesso material e buscava atingir um estágio espiritual, que negava o progresso material.

A ordem surgiu no silêncio e na solidão de um quarto desarrumado, numa casa com pouco conforto e muita magia. A voz silenciosa estabelecia a época da mudança, dava explicações das razões, sem apartes e alegações.

A família chegou de um ritual, ouviu o meu relato e não questionou. Fiquei febril, e me encontraram sadio, deixaram-me doente, ouviram-me consciente. A decisão fora tomada, a mudança foi decidida, e seria cumprida.

Sábado, 3 de agosto, a mudança foi consumada. A estrada iluminada por uma luz dourada, que bem podia ser do sol, no arrebol matinal. Árvores agitavam seus galhos e saudavam a nossa passagem. Enfim, a liberdade!

São Lourenço, a cidade sagrada, seria minha morada. Os guardiões saudavam a minha chegada, o Mestre fez aquela chegada, abençoada. À noite, um ritual, nos próximos dias, as bençãos a um ideal.

Loucura, todos repetiam, ato de fé, dizia eu. Que fé, que garantia tinha eu? Fé não se explica, nem dela se abdica. Mensagem da alma, perda da calma, trauma futuro ou ato seguro.

Trabalho renunciado, comodismo cancelado e futuro ameaçado. Palavra do Mestre, ordem sem certezas, decisão sem grandezas. Obediente, consciente e confiante, segui o Mestre até São Lourenço.

Nasci de novo, não renasci, pois não morri, simplesmente eu era outro, que conhecia o anterior, com seus erros e acertos. Explicar a decisão pela razão não podia, eu só dizia que ordem do Mestre cumpre-se sem argumentar ou explicar.

As recordações me transportam para um relato sobre a fé. Se verdadeiro, eu não sei, nem importa, só importa a mensagem. Que sirva de lição para quem receber algo igual, que saiba distinguir entre o teor da mensagem e as falsas crendices.

Conta-nos um mestre sufi que, havendo um grande desastre com o rompimento de uma represa, um homem crente de muita fé sonhou que Deus prometera salvá-lo. Que ele tivesse calma e muita fé, pois seria salvo.

A água foi subindo, e o homem de fé, isolado em casa, orava confiante na promessa divina. Uma turma de socorro chegou para salvá-lo, mas ele rejeitou ajuda, por entender que estava seguro, como prometera Deus.

Horas depois, a água chegava próxima ao teto da casa, quando chegou uma nova turma de socorro, insistindo para que abandonasse a casa, pois a água continuava a subir. Ele, mais uma vez, recusou a ajuda, com a mesma alegação, por ser um homem de muita fé.

À noite, sobre o telhado, com a casa coberta de água, uma outra turma veio em seu socorro, e diante da insistência de permanecer em casa, em nome da fé, a turma se foi, e ele acabou morrendo.

Segundo o mestre sufi, o homem chegou no Céu muito zangado, exigindo falar com Deus, por haver sido enganado. Conduzido à presença divina, ele se disse um homem de muita fé, e que em nome dessa fé, ele acabou morrendo, abandonado por Deus.

Deus disse ao homem de muita fé que, apesar de toda fé que tinha, ela não soube acreditar na promessa divina, pois, por três vezes, ele rejeitara a ajuda que foi oferecida para a sua salvação.

Ele depositara num Deus criado em sua mente, a missão de salvá-lo, sem entender que Deus possui inúmeros poderes de motivar os humanos a prestarem ajuda a quem tem uma verdadeira fé. Em cada turma, se fazia presente um Deus desconhecido daquele ingênuo homem de fé.

Aguardando um Deus criado em sua imaginação, o homem de fé morreu na ilusão de que sua fé seria a solução que ia salvá-lo. Ele não soube deixar nas mãos de Deus, o modo de ser salvo, por se deixar levar por uma condição imaginária do que fosse a fé.

O mestre sufi concluiu, e concluo eu, a linha que separa a fé da fantasia é uma linha muito tênue, que, se não for muito bem entendida, pode enganar e negar a mensagem.

Manter a conexão permanente com seu Mestre é o modelo ideal para reconhecer o verdadeiro teor da mensagem, e obedecer a ordem do Mestre. O Mestre é o legítimo intermediário entre Deus e o discípulo, e reconhecer a voz do Mestre é obrigação de todos nós.

Interpretações e conclusões próprias são os caminhos mais fáceis para perder os ensinamentos do Mestre, retardar as ações ordenadas e levar a missão ao fracasso.

Escrever esse relato me transporta para 30 anos atrás, quando reconheci a ordem do Mestre e abandonei tudo, sem explicações ou comprovações. E aqui estou, numa conexão permanente com meu Mestre, recebendo mensagens e cumprindo a missão.

Gilberto Gonçalves

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