Ultimamente, eu tenho tomado consciência com maior clareza do que seja o efeito espelho, citado por Jung, e repetido por tantos outros psicólogos. O espelho é aquele eu, transferido para uma imagem de um outro, com quem me identifico, mesmo que, aparentemente, nada tenha a ver com ele.

Em certos casos, a imagem refletida no espelho é de alguém a quem dedico toda minha admiração, quase sempre uma figura familiar, como pai, mãe, avô ou avó. Neste caso, vive-se a exaltar a figura desse parente, justificando atitudes e opiniões, como heranças dessas figuras.

Noutros casos, não menos comuns, mas exercendo tanta influência como essas figuras, surge no espelho a imagem de alguém cujo comportamento não se quer assumir como nosso reflexo, por ser uma pessoa que adota atitudes condenáveis, ilegais ou amorais.

A realidade, porém, é que a figura boazinha cujo papel representamos no teatro da vida, tem um lado mau, que não queremos expor, para não manchar a falsa imagem com a qual tentamos enganar a todos.

Isso se faz presente num relacionamento amoroso, comercial ou político. Mulheres agressivas e vingativas projetam no marido sua má índole, deixando para ele assumir o seu lado mau, enquanto ela se passa por vítima e pobrezinha. No espelho, se reflete a imagem do marido, quando ela se põe em frente desse espelho.

Algo semelhante acontece com quem apoia ou vota num político mau caráter, sem princípios, preconceituoso, violento e mal educado, que projeta a imagem dele no seu espelho. Assim, o eleitor se preserva de exibir todos esses maus hábitos, que teria vergonha de assumi-los, mas que são defendidos e justificados nas ações da figura projetada.

A mulher se faz de santa, o marido é que é um demônio. O político corrupto e mentiroso é defendido por quem se passa por bom moço, que ele mesmo não faz nada daquilo, mas que aplaude e se sente representado por quem o faz.

Essas figuras enganadoras, figurinhas falsificadas no álbum da vida, nunca assumem a sua condição de se olhar no espelho do jeito que são. A imagem falsa sempre assume o seu lugar no reflexo do espelho.

Quem erra nunca é ela, ela é eternamente boazinha, mas, intimamente, apoia todo tipo de injustiças e maldades, com um comentário inocente, “a gente nunca sabe a verdade”, “todos fazem isso ou aquilo, mas não é por mal” ou “pelo menos ele diz o que pensa”.

Essas criaturas são covardes, e não se espere delas, o reconhecimento pela escolha errada. O marido é muito bom para os filhos, e não deixa que nada lhe falte. O político tenta fazer as coisas certas, mas as forças ocultas de oposição não deixam que ele as leve adiante.

Elas são perfeitas personagens do advogado do diabo, por não serem defensoras do bem, mas que se fingem de leais representantes da justiça, na defesa de causas criminosas, que elas disfarçam, inocentando os culpados, mesmo tendo plena consciência de serem culpados.

Lembro-me de um colega de escola, futuro advogado, que achava a função do advogado sublime, encantadora ou coisa do gênero. Quando eu argumentava que o advogado defendia e inocentava criminosos, com falsos argumentos. Ele alegava que era o direito de defesa o que fazia da advocacia uma sagrada profissão.

Até hoje, eu ainda não concordo com essa justificativa, a não ser que caiba ao advogado buscar as atenuantes para o crime cometido, jamais esconder ou falsear com a verdade, para inocentar o criminoso. A justiça devia começar com a confissão do crime, e só depois procurar-se entender os motivos e sem falsear com a verdade encontrar as atenuantes.

Como podemos aceitar tantas mentirar, hipocrisias e injustiças? A mulher apanha do marido, e o defende quando parentes e amigas o atacam e condenam. O cidadão elege um ser indigno de governar a sua nação, mas que vai atacar e se vingar daqueles que ele gostaria de poder atingir e agredir, mas que não tem coragem ou poder para tanto.

O advogado defende um criminoso com mentiras e subterfúgios, um juiz liberta um réu que ele sabe ser o culpado, por conta dos meandros das leis, a mulher não solta o marido violento e não admite críticas ou ações repressivas, que possa condená-lo. Os ingênuos perguntam o por que e os mal intencionados defendem a inocência deles. A mentira justifica a escolha errada, mas por trás tem sempre um KARMA;

Mentiras, interesses financeiros, obsessão pelo poder e ações de outras vidas a serem compensadas nesta vida. Karmas 14, 16 e 19 condenam esses falsos inocentes, e então, ouço aquele clamor dos ignorantes kármicos, aqueles que desconhecem o poder dos karmas, e que buscam em causas sociais, familiares e paixões, explicações para toda essa confusão que tomou conta do mundo.

A minha resposta é sempre a mesma, KARMAS meus pobres e ingênuos fabricantes de karmas, só os KARMAS podem explicar o inexplicável humano. Os responsáveis pelos sofrimentos humanos são os mesmos que sofrem com eles, por suas más e inconsequentes ações.

Depois das besteiras que fazem, eles correm para os templos e vão em busca de consolo para os seus erros, e em vez de serem aconselhados para mão mais repeti-los, eles são convencidos que se contribuírem com uma polpuda esmola, Deus vai perdoá-los pelos erros.

E deixando a igreja e retornando ao espelho, essas pessoas que tanto esperam milagres e riquezas, costumam chegar diante do espelho e, tal qual a madrasta da Branca de Neve, perguntar: Espelho, Espelho meu, existe alguém mais bonita do que eu? E o espelho responderá, Sim, Branca de Neve não morreu.

O Espelho é a Esfinge do mundo moderno. Quem decifrar o enigma do Espelho, conhecerá a imagem verdadeira refletida no Espelho. Decifra-me ou devoro-te.

Gilberto Gonçalves

gilbertodacunhagoncalves@gmail.com