Figos. Uma das delícias que a mãe natureza nos dá. Eu poderia aqui fazer uma “apologia” ao consumo das frutas frescas, bem naturais, sem açúcar. É o que se poderia esperar de um Nutricionista. Mas quem é que resiste a um delicioso doce de figo verde com queijinho mineiro? Eu não resisto, nunca! E este era meu plano quando fui agraciado com um saco de figos vindos da casa da vizinha, com muito carinho. Demorei, porém, para fazer o doce. E os figos, antes verdes, começaram a amadurecer. Para o doce, um pequeno problema. Para meus devaneios, uma oportunidade.

Quem é doceiro sabe, fazer doce de figo dá trabalho. Limpa, corta, lava, ferve, escorre, esfria, congela, descongela, tira a pele, ferve de novo, cozinha. Ufa!!! Mas se o figo tá maduro, isto tudo adianta? Não tem doce de figo verde se o figo não tá mais verde. A gente até tenta, mas será que vai dar certo?

Parecia um problema para os figos eles estarem já amadurecendo. Tanto cuidado e paciência e os figos amadurecendo.

Interessante metáfora se no lugar dos figos tivéssemos pessoas. Aqui, ao contrário, o que menos temos é cuidado e paciência com gente amadurecendo. O que queremos é conviver com gente madura, pronta, doce, cheia de sabores (e saberes). Mas e a parte do preparo, da atenção, de lidar com algo “verde”? Ah, isto nós não queremos. E o pior, não queremos porque já nos achamos maduros. Ledo engano.

Ledo autoengano de cada dia.

Maduro mesmo, mais do que os figos que eu tinha, é gente que aprendeu que a vida é processo. Dá-se conta que o amadurecer se faz a cada novo amanhecer, no cotidiano da vida. Acertando e errando.

Passos a frente, passos atrás. Dando-se conta que humano mesmo não é ser maduro, é ser “amadurecendo”. Um eterno e contínuo caminhar.

Ao contrário dos figos, gente não amadurece assim, do dia para a noite. E não tem como colocar na sacola ou enrolado no jornal para amadurecer mais rápido. Com gente o caminho é outro. Gente madura é gente que se conhece e sabe que não é fácil ser maduro. Não há como ser maduro e ter certeza de ser maduro. É quase contraditório. E faz-nos questionar o sentido que temos dado a palavra maduro quando não estamos falando de frutas.

O cantor lusitano José Afonso escreveu uma música chamada “Maio maduro maio” que conheci na aveludada voz da banda Madredeus. Sempre me perguntei o que José queria dizer com Maio maduro. Me parece mais poético (e precisamos recuperar a poesia da vida) pensar em maduro como para os vinhos portugueses. Vinho maduro não é aquele que “amadureceu”, que está em bom estado, em boa safra. Mas aquele que foi produzido em um lugar específico de Portugua; diz de sua origem e do caminho que ele fez até chegar em outras regiões de Portugal. Acredito que para gente também é assim. Gente, que tem uma origem, um caminho de vida, e que busca ao longo dele estar em constante amadurecer.

Por fim, voltado às terras tupiniquins e aos figos, pode surgir a pergunta:

— Mas e o doce, deu certo?
O que posso responder é que quando a gente aprende a saborear o caminho, o fim da história já nem importa tanto!
Sejamos!!!

Postado por Ir. Anderson Barroso