“Esses dias li o livro da Shonda Rhimes, “O ano em que disse sim”. Nele ela conta algo que me marcou. Durante toda a infância e adolescência ela era uma menina desengonçada que usava óculos fundo de garrafa.

Todos os dias se olhava no espelho e passava horas com o babyliss na mão, ajeitando os cabelos para que parecessem os da Whitney Houston. Todos os dias.

Ela imaginava que, se tivesse os tais cachos incrivelmente arrumados, seus problemas desapareceriam.

Eles nunca ficaram iguais aos da diva inspiradora, por mais que queimasse os dedos tentando.

Um tempo depois, já rica e famosa, ela frequentou o salão que a Whitney frequentava e contou à cabeleireira o seu sonho de criança.

A moça riu. “Você não sabe? Aquilo sempre foi peruca!” .

Ela diz que quase chorou. Nem a Whitney Houston tinha o cabelo da Whitney Houston.

A projeção da perfeição era uma farsa.

Parei pra pensar em quantos dedos queimados a gente coleciona querendo alcançar o inalcançável. Em quanta frustração a gente engole por desejar ser o que não é.

Por desejar não errar nunca mais. Por desejar ser a mãe perfeita.

Por desejar atender a todas as expectativas da nossa mente maluca.

A mãe que sabe exatamente o que fazer, em todos os momentos, que nunca perde a paciência ou a linha é o cabelo da Whitney Houston.

A pessoa que nunca duvida das próprias escolhas e só toma as melhores decisões é o cabelo da Whitney Houston.

A pessoa que não tem uma coleção de dores na própria história é o cabelo da Whitney Houston.

O ser que dá conta de todas as demandas sem qualquer dificuldade é o cabelo da Whitney Houston.

Pare de queimar os seus dedos querendo ser assim. É peruca.

Comece a aceitar que a vida real não é impecável. Que os dias não serão constantes, que as dificuldades existem e sempre existirão. Que não tem linha de chegada, que tudo é caminhada, é processo.

Que alguns dias serão lindos, leves e fluidos, e outros serão vividos com lágrimas nos olhos e dor nas costas. Que a vida é impermanente.

Nas redes sociais a gente sabe recortes da vida do outro, recortes muito bem escolhidos. Não é real.

Se cobre menos. Não desperdice o seu tempo sofrendo por ser quem é e se comparando com a vizinha, você não sabe o que ela esconde por detrás do sorriso.

Você não sabe as batalhas internas de ninguém. Agora, quando a minha mente tagarela quer me dizer que todo mundo tá lindo, feliz e sorridente e só eu que estou atolada em minhas demandas, tenho lembrado da Shonda.

No final das contas, deve ser só uma peruca.”

Texto postado no Instagram por Elisama Santos: https://www.instagram.com/p/BhKvqn8hsFb/?taken-by=elisamasantosc

Muito lindo e inspirador! Mas o cabelo não era falso… Ele existia no coração da Whitney e também no coração da menina. Eram suas âncoras…

Eu consigo ver algo ainda mais amplo e mágico neste texto.

Eu vejo a necessidade humana de se amparar em arquétipos, mitos que nos elevam a uma condição especial.

Eu também tive meus inspiradores e mesmo depois de descobrir que eles eram humanos e falhos não me decepcionei e reconheci seu valor na minha formação.

Quando garoto meu pai era meu herói perfeito , um verdadeiro Deus parar mim. Quando cresci entendi que ele era cheio de falhas algumas bem difíceis de conviver, mas ele me fez vencer grandes desafios com sua inspiração. E nunca deixei de reverencia-lo. E hoje quando preciso de um guerreiro é nele que me inspiro.

Já idolatrei muitos mestres para depois descobrir que também eles eram falhos e humanos, mas nunca perdi a admiração pelo seus valores e pelo que eles representaram em determinado momento de minha vida.

Todos precisamos destes ídolos, verdadeiros suportes para nossa psiquê. E não apenas quando somos crianças, mas sempre que precisamos fazer algo que parece estar acima de nossa capacidade.

Eles são nossas âncoras para puchar se dentro de nós os heróis, mestres visionários e curadores que neles projetamos…

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