Como é fácil gostar do outro à primeira vista. Na conversa de bar, regada a chopp gelado e assuntos banais. Amamos o outro pelas primeiras coisas em comum, pela promessa de um futuro bom, pela beleza que cativa. É muito fácil amar o outro no final de semana, no mergulho na praia, nas mensagens de texto e nas redes sociais. Vivemos na aceleradíssima era do descartável – e só temos tempo para alcançar uma coisa: a conexão com a felicidade.

O que nos mata nisso tudo, é que não percebemos que esta é a maior causa das nossas desconexões com o próximo: a necessidade de só se viver o bom. Nos tornamos inábeis em lidar com a dor do outro. Não temos tempo, não temos saco, “não somos obrigados a nada”. E nisso tudo, vivemos mais sós do que nos damos conta. Terminando relacionamentos que nem começam, pulando de galho em galho, a eterna euforia inicial.
Ficou difícil amar o inverno do outro. Quando, por alguma razão, o outro entra na era glacial das emoções. É difícil ficar quando o outro transborda, quando chove por dentro, quando não entende mais nada. Não sabemos lidar quando temos que sair da nossa querida zona de conforto e amar mais um pouquinho aquela pessoa que parece não merecer. Não estamos aptos (ou dispostos) a deixar o nosso sossego para perceber as dores agudas que rasgam ao nosso lado. Estamos opcionalmente cegos.

Eu ainda tenho a fé – de quem já passou por invernos e tormentas – de que a gente se transforme. Que possamos perceber que, assim como estações do ano, as emoções também não são permanentes. E é isso que faz a vida ser a Vida. A gente não tem a dura missão de fazer florir o mundo interno do outro, mas a podemos ser aquele calorzinho que falta. Não há como fazer as dores desaparecerem, pois cada um tem sua própria trajetória. Mas podemos sim ser a presença importante e ter consciência do quanto é ruim quando desistem da gente. E que, a partir disso, possamos aproveitar o outro nas suas quatro estações.

Texto: Stéphanie Waknin

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