Dublin 8ºC, sensação térmica de 3ºC. Terminei meu trabalho, peguei a bike e vinha voltando pra casa. Começou um temporal. Daqueles que alaga tudo, que faz todo mundo na rua começar a correr. Os motoristas que dirigiam ao meu lado olhavam com pena de mim. Eu fui ficando cada vez mais molhada. A água parou de ser água e virou granizo. Adeus chapinha, maquiagem ou qualquer senso de ridículo.Tinha tudo pra me irritar. Mas no meio desse caos momentâneo eu senti Deus.

Me veio uma paz, uma sensação de alegria que não cabia em mim, e em questão de segundos eu entendi o porquê. Eu lembrei do bloco do Barbas que eu ia com a minha família, lembrei da gente gritando juntos pra moça do carro com a mangueira de água “Joga mais! Joga mais!”. Lembrei de andar de ipanema até botafogo cantando e bebendo com um grupão de amigos, todo mundo sem suportar mais o calor, e do nada cair aquela chuva muito forte de verão. Todos na rua felizes, curtindo o corpo molhado e brincando uns com os outros. Me senti conectada com o Brasil, com o carnaval. Como se meu corpo não estivesse aí mas minha alma estivesse inteira no país mais lindo do mundo. Botei veveta pra tocar no celular, depois de país tropical engrenei no funk boladão e vim que nem doida dançando e curtindo o carnaval que apareceu dentro de mim. O frio até sumiu.

Realmente a minha casa é onde meu coração está. E o meu coração está na Irlanda. Mas ele já veio brasileiro. E que país sortudo de receber um coração tão cheio de amor pra dar como os de tantos brasileiros que vem pra cá. Porque foi isso que eu senti. Amor. Amor pelos churrascos, pelas cervejas nos pé sujos, pelos amigos todos indo lá pra casa comer o macarrão da minha mãe e depois indo pro bloco seguinte. Amor por tudo que meu país me ensinou e que agora eu posso ensinar pro resto do mundo todo. É.. Deus é mesmo brasileiro.

Bruna Saldanha