É impressionante o desafio de um bebê desde que é arrancado de sua confortável vida intra-uterina e se vê separado daquilo que considerava sua única existência. Seu pequeno cérebro não consegue conceber ainda a ideia de separação e a única coisa que ele pode fazer é expressar pelo choro o seu desespero.

Aos poucos ele compreende que a mãe é um ser separado dele, mas não entende porque ora ela atende seus desejos e hora lhe nega, como se fossem duas mães diferentes, uma que lhe causa prazer e outra que lhe causa dor e ódio. Seu pequeno cérebro aos poucos vai desenvolvendo a capacidade de lidar com a dualidade, mas tem ainda que lidar com este “cara” que lhe rouba a sua mãe o tempo todo. Mais uma vez ele vai se acostumando e acha o cara até interessante, embora tão diferente daquilo que ele considerava como sendo seu universo materno.

Assim o pequeno bebê vai crescendo em um mundo sempre lhe cobrando uma adaptação, as vezes de forma violenta, as vezes de forma suave. Quando chega a época de ir para a escola, então o choque é maior ainda, porque seu pequeno mundo de pais e irmãos, explode em uma diversidade incompreensível que ele tem que aprender a lidar e cujas regras de convivência anteriormente aprendidas são muitas vezes ineficientes.

Quantos traumas podem surgir em todos estes períodos de adaptação. Os pais também estão resolvendo seus dramas internos e muitas vezes não se dão conta de quanto eles estão agredindo o universo do pequeno ser. Os irmãos não estão nem ai para os dramas inconscientes uns dos outros, pois estão buscando a própria sobrevivência neste mar de incertezas, e os colegas também são náufragos inconscientes que lutam ferozmente e agridem a quem se aproxime. Quantos problemas pequenos e grandes guardamos em nosso inconsciente, quanta coisa não resolvida. Os Médicos veem como trauma apenas aquilo que foge muito da normalidade, mas penso que todos carregamos conosco uma infinidade de problemas não resolvidos e para enfrenta-los precisaremos alcançar a “maturidade” emocional.

Hoje vi uma reportagem sobre Buling, que também se enquadra neste tema que estamos analisando, porque pode ser uma outra forma de revelar ou criar traumas.

Aquele que sofre com o buling está deixando vir a tona uma magoa ou ressentimento guardado em seu inconsciente, um julgamento ou uma insatisfação pessoal que o outro explicita. Se ele se aceitasse com suas diferenças, não seria tão afetado pelas brincadeiras de mau gosto alheia. Mas ao mesmo tempo que o buling revela a crueldade daquele que humilha o outro, também revela as suas próprias dificuldades de lidar com o diferente, mostrando seu questionamento interior que é também trazido a tona pela diferença que o outro expressa, como algo que ele tenta negar e esconder.

Parece que no fundo pelo menos de louco, todos temos um pouco,

O mundo traz a tona nossos traumas, nossos problemas não resolvidos que tentamos em vão jogar para debaixo do tapete, ou melhor para o nosso “mar do inconsciente”.

Conforme a Visão de Jung, somos todos navegantes neste imenso oceano do inconsciente, com nossos pequenos barquinhos, que é a nossa consciência. Somos pescadores buscando os “peixes” no mar sem fim trazendo para o barco na superfície para digerir e compreender. Mas alguns peixes são muito grandes e difíceis e podem nos levar para o fundo.

Por outro lado, a medida que conseguimos lidar com os peixes indigestos, o próprio barco aumenta de tamanho, nos permitindo então digerir peixes ainda maiores. Com barcos maiores podemos então navegar em alto mar, e então aprender a mergulhar profundamente e ir ao encontro destes peixes que habitam as regiões mais profundas. Assim, com nossa capacidade analítica como arpões afiados, nos tornamos então habilidosos em pesca submarina, compreendendo melhor quem somos e porque estamos aqui e para onde estamos indo.

Então, finalmente, podemos abrir sem medo nossa caixa de Pandora.

Então veremos que está tudo lá, tudo o que somos, todo o que gostamos ou odiamos, nossos medos, alegrias, glorias, forças e fraquezas, manias, certezas e incertezas. Os traços da nossa Personalidade foram construídos com as essências destes frascos, ou melhor, com as experiencias e influencias proporcionadas pelo meio em contato com aquilo que já tínhamos guardado dentro de nós. E não poderia ser diferente, porque nascemos como uma folha em branco e o mundo escreveu aquilo que somos.

Mas então, como explicar que as mesmas experiencias podem causar reações inversas em diferentes pessoas? Como explicar que um pai ou uma mãe agressores pode despertar depressão em um filho e garra e determinação em outro, Como explicar que um pai fumante pode fazer alguns filhos viciados e outros que nunca tocarão no cigarro, como explicar tantas diversidades de reações em seres que vivenciaram a mesma experiencia e até mesmo irmãos gêmeos que se diferenciam totalmente embora vivendo o mesmo meio ?

Uma das diferença da visão de Jung e seu Professor, Freud, é que ao contrário de Freud, Jung mergulhou mais fundo neste mar do inconsciente e penetrou em uma região que transcende os limites das experiencias conhecidas pela consciência vivente. Então ele nos trouxe a visão do inconsciente coletivo, como um oceano infinito que comunica toda a humanidade e com o Universo inteiro.

Penetrar em suas próprias profundezas significaria então penetrar na consciência coletiva. Resolver seus próprios enigmas significaria então ajudar a purificar o oceano humano. Ajudar o outro em seus traumas significaria ajudar a resolver seu próprio problema.

Vivemos uma era muito especial em que o brilho de uma luz intensa incentiva a busca pela verdade escondida e guardada por séculos. As represas estão rompendo e a lama represada por séculos está sendo revolvida, revelando segredos do fundo das mentes, dos corações e das instituições, a verdade enfim está sendo revelada.

Este resolver-se é como um despertar, como o sol da manha que brilha gradativamente e nos abre os olhos lentamente. E uma vez acordados, queremos acordar os demais para que vejam a luz do lindo dia.

Vejo anjos de luz, de mãos dadas em uma grande corrente acordando uns aos outros,
Anjos de luz, como milhares de pirilampos iluminando a noite escura despertando almas pelo seu brilho doce e meigo,
Anjos de luz mensageiros do grande Sol que brilha,
Anjos de luz cuja noite não mais amedronta,
Nunca vi tantos anjos de mão dada,
Nunca vi tanta luz e beleza sobre esta noite escura,
Que coisa linda será o amanhecer quando todos abrirem seus olhos para realidade bela,

Mas para participar deste novo dia é preciso despertar do sono dos séculos.

Acorda irmão, e desperta os outros irmãos pela tua simplicidade, pela tua paz, pela tua fé e pelo teu exemplo.