Em raros momentos de nossas vidas, podemos sentir que estamos sincronizados com o universo inteiro. Esses momentos podem ocorrer sob muitas circunstâncias — acertar um golpe perfeito no tênis ou encontrar a descida perfeita numa pista de esqui, em meio a uma experiência sexual plenamente satisfatória, na contemplação de uma obra de arte ou na meditação profunda.

Um aspecto intrigante da metáfora holográfica é uma possível relação com duas idéias da física moderna. Uma delas é a ideia de Geoffrey Shew de que as partículas subatômicas são dinamicamente compostas umas das outras, de tal modo que cada uma delas envolve todas as demais; a outra ideia é a noção de David Bohm de ordem implicada, de acordo com a qual toda a realidade está envolvida em cada uma de suas partes.

O que todas essas idéias têm em comum é a noção de que a holonomia — o ser total contido, de algum modo, em cada uma de suas partes — pode ser uma propriedade universal da natureza. Essa ideia também foi expressa em muitas tradições místicas e parece desempenhar um importante papel nas visões místicas da realidade.

A metáfora do holograma inspirou recentemente numerosos pesquisadores e foi aplicada a vários fenômenos físicos e psicológicos.

Lamentavelmente, isso nem sempre é feito com a necessária cautela, e as diferenças entre uma metáfora, um modelo e o mundo real são esquecidas, por vezes, na onda de entusiasmo geral. O universo não é, definitivamente, um holograma, pois exibe uma multidão de vibrações de diferentes frequências; assim, o holograma pode freqüentemente ser útil como analogia para descrever fenômenos associados a esses modelos vibratórios.

Tal como no processo de percepção, o ritmo desempenha um importante papel nas várias maneiras como os organismos vivos interagem e se comunicam entre si. A comunicação humana, por exemplo, tem lugar, em grau significativo, através da sincronização e da interligação de ritmos individuais.

Recentes análises de filmes mostraram que toda conversação envolve uma dança sutil, e em sua maior parte invisível, em que a seqüência detalhada de tipos de fala é precisamente sincronizada tanto com movimentos ínfimos do corpo do locutor como com os movimentos correspondentes do ouvinte.

Ambos os parceiros estão enlaçados numa seqüência intricada e precisamente sincronizada de movimentos rítmicos que dura enquanto eles permanecerem atentos e envolvidos em sua conversa.

Um entrelaçamento semelhante de ritmos parece ser responsável pela forte vinculação entre os bebês e suas mães e, muito provavelmente, entre as pessoas apaixonadas. Por outro lado a oposição, a antipatia e a desarmonia surgem quando os ritmos de dois indivíduos não estão em sincronia.

Esses momentos de ritmo perfeito, quando tudo parece estar exatamente certo e as coisas são feitas com grande facilidade, são elevadas experiências espirituais em que todo tipo de separação ou fragmentação é transcendido.

Neste exame da natureza dos organismos vivos, vimos que a concepção sistêmica de vida é espiritual em sua essência mais profunda e, portanto, compatível com muitas idéias sustentadas nas tradições místicas. Os paralelos entre ciência e misticismo não se restringem à física moderna, mas podem ser estendidos agora com igual justificação à nova biologia sistêmica.

Dois temas básicos se destacam repetidamente ao estudarmos a matéria viva e não-viva, sendo também amiúde enfatizados nos ensinamentos dos místicos: a interligação e a interdependência universais de todos os fenômenos e a natureza intrinsecamente dinâmica da realidade. Nas tradições místicas encontramos também um certo número de idéias, menos relevantes ou pouco significativas para a física moderna, mas cruciais para a visão sistêmica dos organismos vivos….”

Trecho extraído do Livro : O ponto de Mutação de Fritijof Capra. pags. 281 e 282