“… Um dos sistemas mais abrangentes para integrar diferentes escolas psicológicas é a psicologia de espectro, proposta por Ken Wilber. Ela unifica numerosas abordagens, ocidentais e orientais, num espectro de modelos e teorias psicológicas que reflete o espectro da consciência humana. Cada um dos níveis, ou faixas, desse espectro caracteriza-se por um diferente senso de identidade, indo da suprema identidade da consciência cósmica até a identidade drasticamente limitada do ego. Tal como em qualquer espectro, as várias faixas exibem infinitas tonalidades e gradações, fundindo-se

gradualmente umas nas outras. Não obstante, podem ser percebidos vários níveis importantes de consciência. Wilber distingue, basicamente, quatro níveis, que são associados a correspondentes níveis de psicoterapia: o nível do ego, o nível biossocial, o nível existencial e o nível transpessoal.

No nível do ego, a pessoa não se identifica com o organismo total, mas apenas com alguma representação mental do organismo, conhecida como auto-imagem ou ego. Pensa-se que esse self desencarnado existe dentro do corpo; assim, as pessoas dizem “Eu tenho um corpo”, em vez de “Eu sou  um corpo”. Em certas circunstâncias, tal experiência fragmentada do próprio self pode ser ainda mais distorcida pela alienação de certas facetas do ego, que podem ser reprimidas ou projetadas em outras pessoas ou no meio ambiente. A dinâmica desses fenômenos é minuciosamente descrita na psicologia freudiana.

Wilber chama o segundo nível da consciência em importância de “biossocial” porque representa aspectos do meio ambiente social de uma pessoa — relações de família, tradições culturais e crenças —, que estão mapeados no organismo biológico e afetam profundamente as percepções e o comportamento da pessoa. A influência preponderante de padrões sociais e culturais sobre o senso de identidade do indivíduo tem sido extensamente estudada por psicólogos voltados para o social, antropólogos e outros cientistas sociais.

O nível existencial é o nível do organismo total, caracterizado por um senso de identidade que envolve uma consciência do sistema corpo/mente como um todo integrado, auto-organizador. O estudo dessa espécie de autoconsciência e a exploração de todo o seu potencial é o objetivo da psicologia humanista e de várias psicologias existenciais. No nível existencial, o dualismo entre corpo e mente foi superado, mas dois outros dualismos subsistem: o dualismo sujeito versus objeto, ou self versus “o outro”, e o de vida versus morte. As questões e os problemas decorrentes desses dualismos são uma importante preocupação das psicologias existenciais, mas não podem ser resolvidos no nível existencial. Sua resolução requer um estado mental em que os problemas existenciais individuais sejam percebidos em seu contexto cósmico. Tal percepção surge no nível
transpessoal da consciência.

As experiências transpessoais envolvem uma expansão da consciência para além das fronteiras convencionais do organismo e, correspondentemente, um senso mais amplo de identidade. Elas podem também envolver percepções do meio ambiente que transcendem as limitações usuais da percepção sensorial. O nível transpessoal é o nível do inconsciente coletivo e dos fenômenos que lhe estão associados, tal como são descritos na psicologia junguiana. É uma forma de consciência em que o indivíduo se sente vinculado ao cosmo como um todo e pode, assim, ser identificado com o conceito tradicional de espírito humano. Essa forma de consciência transcende freqüentemente o
raciocínio lógico e a análise intelectual, aproximando-se da experiência mística direta da realidade. A linguagem da mitologia, a qual  é muito menos restringida pela lógica e o senso comum, é freqüentemente mais apropriada para descrever fenômenos transpessoais do que a linguagem fatual. Como escreveu o pensador indiano Ananda Coomaraswamy, “o mito consubstancia a maior aproximação da verdade absoluta que pode ser formulada em palavras”

Na extremidade do espectro da consciência, as faixas transpessoais fundem-se  no nível do Espírito (Mind), de acordo com a denominação de Wilber. É o nível da consciência cósmica, em que a pessoa se identifica com o universo inteiro. Podemos perceber a realidade última em todos os níveis transpessoais, mas só nos tornamos essa realidade no nível do Espírito.

A percepção consciente, nesse nível, corresponde ao verdadeiro estado místico, no qual todas as fronteiras e dualismos foram transcendidos e toda a individualidade se dissolve na unicidade universal, indiferenciada. O nível do Espírito tem sido a preocupação preponderante das tradições místicas e espirituais do Oriente e do Ocidente. Embora muitas dessas tradições estejam cônscias dos outros
níveis e os tenham, com freqüência, descrito e mapeado em grandes detalhes, elas sempre enfatizaram que as identidades associadas a todos os níveis de consciência são ilusórias, exceto quando se trata do nível final do Espírito, onde a pessoa encontra sua identidade suprema.

Trecho extraido do Livro “O Ponto de Mutação de  Fritjof Capra pags. 348 e 349.